sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A CAIPIRINHA



BUDAPESTE, FIM DE SEMANA, NADA MELHOR QUE UMA BOA CAIPIRINHA...

Ah, que beleza, o fim de semana está próximo e nada melhor do que uma caipirinha bem gelada...

"Todo brasileiro que se preze deve saber preparar o drink mais típico do seu país, no caso uma caipirinha. E se você for brasileiro e estiver no exterior o preparo da caipirinha é mais que uma obrigação é quase uma incumbência."...

A idéia desde post foi tirada exatamente do post anterior "Comida também é cultura" onde citamos uma caipirinha que experimentamos em "terras Magiares" que estava, digamos, um pouco "amarga". Quem nunca preparou (ou tentou preparar) uma caipirinha? não é verdade... Mas agora me pergunto: qual é o segredo da caipirinha? Como preparar uma boa caipirinha? Foi exatamente pelo fato de passarmos dias e dias sem conseguir responder à essa pergunta que resolvemos ir atrás e pesquisar um pouco sobre a história e o segredo de uma boa caipirinha...



BREVE HISTÓRIA DA CAIPIRINHA

por Sidney Simoes (*)

Não se pode falar sobre a caipirinha sem falar da cachaça, e para falar da famosa bebida brasileira vale a pena voltarmos no tempo para conhecermos um pouco sobre o álcool e sua origem. Bebidas fermentadas como o vinho e a cerveja, remontam aos primórdios da humanidade. No código de Hamurabi na antiga Babilônia, em 1750 a.c. já se mencionavam proibições para sacerdotisas frequentarem tavernas. Durante séculos a humanidade saboreou suas bebidas fermentadas, os babilônios com sua cerveja, os gregos com o vinho e os índios brasileiros com o caiçuma, uma bebida fermentada a partir do milho. Foi no século X que Avicena - médico, astrônomo e filósofo árabe - descobriu o processo de destilação do material fermentado. A destilação produz um líquido composto em sua maior parte por álcool etílico. A palavra álcool tem origem árabe "Al Kuhul" que curiosamente significa fina poeira referindo-se ao sulfeto de antimônio, cosmético muito usado pelos egípcios. Posteriormente este termo passou a designar qualquer essência como o álcool. Entre o século X e XII, os alquimistas europeus classificaram o produto da destilação como "aqua ardens" literalmente água que pegava fogo. A água que ardia posteriormente foi obtida com um maior teor alcoólico e foi chamada de aqua vitae, eau de vie em francês e uisqe beatha em irlandês. Esta água da vida ou quintessência era usada pelos médicos como remédio. Com o avanço da ciência os químicos classificaram os álcoois e sua grande família, o álcool etílico é o composto que nos embriaga. A famosa reação de fermentação onde a glicose vira álcool é chamada de reação de Gay Lussac, famoso químico francês. Ele deixou sua marca em cada garrafa pois ao lermos o teor alcoólico usamos a escala que tem seu nome. Avancemos um pouco no tempo, estamos no século XVI, período da introdução da cana de açúcar no Brasil. Nos engenhos de cana, o que restava da produção de açúcar era dado aos escravos e aos animais. Este resíduo era a borra do melaço fermentada, conhecido como "vinho de cana". Esta borra é chamada até hoje pelos espanhóis de "cachaza" ou cagassa em português. Os jesuítas registraram que a "áugoa ardente" era dada aos escravos. Alguém teve então a feliz idéia de usar a técnica de Avicena, nesta época já espalhada pela Europa, e destilar este resíduo obtendo um destilado com alto teor alcoólico. Surgia assim a cachaça. A origem deste nome é controversa. Morais Silva, autor do primeiro grande dicionário de portguues em 1813 e dono de engenho, relata que quando se fervia a mistura aparecia um pescoço ou cachaço no tacho. Nas palavras dele a palavra cachaça vem da "primeira fervura da cana, que se alteia e toma a forma de um cachaço. Mas existe a palavra espanhola "cachaza" e fica-se na dúvida se foi o cachaço português que influenciou o espanhol ou vice-versa. No século XVI em Portugal já se falava em cachaça, o poeta Sá de Miranda, escrevia para um amigo em forma de versos: Ri não mordia a graça/eram iguais os juízes/Não vinha nada da praça/Ali da vossa cachaça/Ali das vossas perdizes. Os livros de história são unânimes em afirmar que o primeiro lugar a produzir aguardente foi a Capitania de São Vicente, onde hoje fica o estado de São Paulo, já que lá é onde estava instalado o primeiro engenho real de cana.Em 1584, Gabriel Soares faz o relato de que já existiam 8 casas de "cozer mel" como eram chamados os engenhos que produziam a cachaça, bem antes dos ingleses iniciarem a produção de rum no Caribe em um processo assemelhado. No alambique quando a temperatura chega a 78 graus o álcool etílico ferve e se separa da água. O objetivo é se livrar das partes tóxicas como o metanol e obter álcool aromatizado. O segredo de uma destilação perfeita consiste em descartar-se o início e o fim da destilação chamada respectivamente de cachaça de cabeça e cachaça de rabo, obtendo o meio que é a cachaça do coração. Esta, com seus diversos compostos como óleos fúseis é que é a cachaça de boa qualidade, transparente, ideal para fazer caipirinha, com um teor de álcool alcoólico acima de 40%. A cachaça era fabricada quase em todo lugar onde houvesse um engenho de açúcar, virou moeda de troca, usada para comprar escravos na África. A produção nacional passou até a incomodar o governo português que viu sua venda de vinho e de seu destilado, a bagaceira, despencarem. Tentaram proibir a produção da cachaça, mas tal tarefa revelou-se quase impossível. O governo português resolveu cobrar taxas sobre a produção.Os impostos sobre a cachaça ajudaram a reconstruir Lisboa, abalada por um terremoto em 1756. Altos impostos cobrados pela coroa portuguesa foi uma das causas de revoltas no Brasil. Na Conjuração Mineira a cachaça passou a ser um dos símbolos. Os inconfidentes valorizavam o produto nacional e incentivaram o consumo do que até hoje os portugueses chamam de aguardente da terra. A cachaça, sendo relativamente barata, tinha conquistado o país. Em quatro séculos de história ganhou diversos nomes. O novo dicionário Houaiss registra mais de 500 sinônimos para a cachaça do "abre" à "zuninga". Embora a elite brasileira tenha por vezes torcido o nariz para a cachaça ela tornou-se a bebida nacional, a cara do Brasil. Esta mesma elite ignorava as frutas abundantes em nossa terra. Melhor para os escravos que tinham em sua suco de frutas. Os escravos gostavam também da garapa, o caldo-de-cana não fermentado e quando possível animavam as festas com cachaça que até em parte dada para os espíritos do mortos. Os sucos de fruta misturado à cachaça originou a famosa "batida". A mais famosa era a batida-de-limão que podemos considerar como a a proto-caipirinha, faltando os pedaços de limão com casca que dariam a caipirinha o seu gosto original. Mas a cachaça era usada como remédio também. Quando a medicina sequer podia ser considerada uma ciência já existiam elixires que em sua grande parte eram alcoólicos. Até hoje no interior do Brasil é comum tomar-se pinga com limão e mel. Um saudável remédio para gripes e resfriados. A aguardente tornava-se novamente a áqua da vida dos alquimistas. Passemos então ao início do século XX. O mundo e o Brasil fevilhavam, os anos 20 eram de agitação cultural, o Brasil se achava inferior e buscava um caminho próprio. Surgiu o Modernismo Brasileiro, revoltando-se contra as amarras impostas pela Europa. Literatura, pintura e poesia tiveram um nova rota a seguir a partir deste movimento cujo símbolo era a antropofagia, ou seja o que é mandado pelos gringos será literalmente comido e absorvido, assim como alguns de nossos índios fizeram com os europeus. Acima de tudo o Modernismo valorizava a cultura brasileira. De novo a cachaça entrava em cena para as elites. Um dos expoentes do Modernismo, o escritor Oswald de Andrade, deixou seu relato em seu diário "Trago rapadura de cidra e uma alma pré-homérica cheia de pinga com limão. Positivamente amanhece na vida. O cisne desliza agonizante na fonola, está tudo azul, o céu, a vida, a tinta." Oswald de Andrade casou-se com Tarsila do Amaral, uma das maiores pintoras modernistas. Tarsila, em, biografia por sua sobrinha, relata que na década de 20, ela organizava famosas feijoadas em Paris. O feijão era fácil de arrumar nos mercadinhos mas a pinga para a caipirinha vinha do Brasil e passava pela alfândega francesa rotulada como "produto de beleza", o que não deixa de honrar as origens do nome "Al Kuhul".



O pré-modernista Monteiro Lobato em seu primeiro livro, Urupês, fala das "caipirinhas rosáceas" do poeta Fagundes Varela, criava o personagem Jeca Tatu que criticava por sua indolência. Posteriormente Lobato mudou sua visão ao descobrir que o Jeca Tatu não era indolente e sim pouco instruído.
Da batida de limão evolui-se para o limão com casca em rodelas ou pedaços. A tecnologia ajudou e tínhamos gelo à vontade para torná-lo refrescante. Mas quando é que o nome de caipirinha foi usado pela primeira vez para rotular o drinque ? Caipira era o termo paulista que designava a "habitante do campo" segundo o Dicionário de Vocábulos Brasileiros de 1889 e mesmo a origem desta palavra é obscura. Aparentemente originou-se do Tupi de "caipora" ou "curupira". Caipora ou em uma tradução literal do Tupi por significa "habitador do mato". Curupira é um ente fantástico, um demônio que vagueia errante pelo mato. Talvez alguém tenha abusado da bebida e valorizando a mitologia nacional viu "curupirinhas" à sua volta ao invés dos tradicionais elefantes-rosa dos desenhos animados. Mas isso tudo é especulação. Certo é que a caipirinha é hoje um drinque conhecido internacionalmente e incorporado ao nosso rico folclore.
O "The Dictionary of Drink" da Tiger Books dá a receita da caipirinha como é conhecida no mundo: Uma dose de cachaça, um limão e açúcar à gosto. Corta-se o limão em pequenos pedaços, coloca-se o açúcar e se amassa. Serve-se em um copo padrão, enche-se de gelo e finalmente adiciona-se a cachaça. Deve ser servido com uma colher. Esta receita é a nossa legítima caipirinha com a pequena difereça que aqui no Brasil usa-se ao invés da colher um palito de madeira.
A caipirinha é um drinque refrescante e tipicamente tropical representando com louvor o Brasil no mundo. Infelizmente a originalidade da nossa caipirinha é ameaçada pelo rum, primo da cachaça pois é também fabricado a partir da destilação da cana de açúcar. O rum branco, destilado do mosto de cana fermentado sai do alambique com mais de 80% de teor alcoólico tendo seu teor alcoólico diluído para cerca de 40%. A matéria prima é parecida mas o processo gera um produto diferente. Esta semelhança faz com que diversos dicionários e artigos na imprensa mundo afora ignorem a cachaça por achá-la semelhante ao rum.
Nós brasileiros temos parte da culpa pois por vezes chamamos fazemos caipirinha com vodka ou heresia das heresias com o concorrente rum. Se você gosta de álcool de batata, imagine-se no norte da Europa e peça sua caipirovska, ou então imagine-se no Caribe e peça uma caipiríssima com rum e seu álcool diluído. O nome caipirinha é exclusivo para o drinque elaborado com cachaça e fim de papo. Claro que em honra a nossa grande variedade de frutas pode-se usar lima-da-pérsia, morango, e uva, mas sempre com cachaça.
E finalmente ao tomar sua caipirinha saiba que você está com séculos de história em seu copo, uma historia de valorização do produto nacional, algo que para nós brasileiros é sempre necessário.

(*) Sidney Simóes é carioca, mora em Curitiba e gosta de história e de estórias.

MATERIA EXTRAÍDA DO SITE: http://www.umacoisaeoutra.com.br/viagem/caipirinha.htm



COMO PREPARAR UMA BOA CAIPIRINHA:

Passo a passo:

1. Escolha um limão bem suculento e que não esteja muito maduro.

2. Descasque-o cuidadosamente, tomando o devido cuidado para retirar somente a casca e não feri-lo. Lave-o em água corrente e corte em 8 fatias. Retire a parte branca do meio do limão.

3. Coloque as fatias do limão na coqueteleira e acrescente 5 colheres rasas de açúcar (ou a gosto). Utilizando um socador, amasse as fatias até que se transformem em suco e se dissolvam com o açúcar.

4. Acrescente 4 cubos de gelo, de preferência, picados.

5. Coloque duas doses de uma boa cachaça. Caso prefira vodka (caipiroska), acrescente uma dose de água gelada.

6. Agite bem a mistura.

7. Faça um charme a mais, decorando o copo com uma rodela de limão. Se preferir, antes de despejar a “caipirinha” no copo, molhe levemente sua borda e passe no açúcar cristal para ficar um filete brando, lembrando gelo. Agora é só relaxar e curtir a bebida em boa companhia.

Atenção:

1. A dosagem referida é suficiente para um copo grande ou 3 doses pequenas. Não exagere no consumo!



Esperamos que este post tenha contribuído um pouco para o enriquecimento de seus conhecimentos sobre esse coquetel tão conhecido mundo a fora e ao mesmo tempo tão pouco estudado :-D
Agora você já pode convidar aquela sua amiga húngara ou aquele seu amigo húngaro para tomar uma boa caipirinha na sua casa...
"Todo mundo acha que pode preparar uma caipirinha, mas nada melhor do que uma boa caipirinha preparada pelas mãos de um Brasileiro"

BOA SORTE e...


EGÉSSÉGEDRE...

2 comentários:

paulinha disse...

Muito esclarecedora e educativa a matéria. Principalmente com o protocolo de como preparar a dita cuja!

Oscar Silbiger disse...

BRASILEIROS QUE RECONSTRUÍRAM SUAS VIDAS
FORA DO BRASIL PODERÃO TRANSFORMAR
SUAS EXPERIÊNCIAS EM LIVRO
Sair do próprio país para enfrentar desafios numa terra nova não é tarefa fácil para ninguém: além das dificuldades da língua, serão encontrados costumes diferentes, regras desconhecidas e outros obstáculos que precisarão ser superados com muito esforço, resiliência e determinação.
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